História das Terapias Cognitivas no Rio de Janeiro

O Desenvolvimento da Terapia Cognitivo-Comportamental no Rio de Janeiro

Por Eliane Mary de Oliveira Falcone e Bernard Pimentel Rangé

Tudo começou com a Condutoterapia

A terapia cognitivo-comportamental no Rio de Janeiro tem as suas origens no enfoque comportamental, com uma prática primordialmente clínica. Durante os anos 1960, Geraldo da Costa Lanna (1928-2012), da Universidade Gama Filho e Octávio Soares Leite (1928-1991), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dedicaram-se a prática da terapia comportamental, referida como “condutoterapia”, termo criado por Geraldo Lanna (Rangé & Guilhardi, 1995). Ambos exerceram um importante papel no início do movimento comportamental, que mais tarde viria a reunir uma considerável quantidade de adeptos.

Dentre esses adeptos destaca-se Bernard Rangé que, ainda graduando de psicologia, foi aluno de Octávio Leite nas disciplinas de Psicologia Experimental e Aprendizagem Humana. Através dos ensinamentos de Octávio, ele teve oportunidade de conhecer vários autores ilustres, dentre os quais os mais conhecidos eram Albert Bandura e Joseph Wolpe. O primeiro, com sua teoria de Aprendizagem Sócio-Cognitiva até hoje considerada, especialmente quanto aos conceitos de Modelação e de Autoeficácia. O segundo, famoso por criar a técnica de Dessensibilização Sistemática, baseada no Princípio de Inibição Recíproca, muito utilizada no tratamento de fobias.

Rangé também participou de um grupo de estudos coordenado por Octávio Leite. Na mesma época iniciou estágio supervisionado por Myriam Vallias de Oliveira Lima, que acabara de regressar de uma temporada de estudos com Wolpe e estava atendendo e supervisionando na abordagem comportamental. Essa experiência teve grande influência na escolha de Rangé, uma vez que essa prática clínica era fundamentada em fatos, fazia previsões que se confirmavam ao final dos atendimentos e tornava a relação terapêutica mais cooperativa.

Posteriormente, já como professor da PUC-RJ, Rangé se vinculou ao grupo de comportamentalistas de São Paulo a partir da II Reunião da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), ocorrida em Ribeirão Preto, em outubro de 1971, onde conheceu figuras ilustres da análise do comportamento, como João Claudio Todorov e Thereza Mettel. Esse foi o início de um intercâmbio profícuo entre Rangé e vários profissionais ligados à análise do comportamento. Rangé concluiu o mestrado com a orientação de Thereza Mettel.

Durante os anos 1970, Eliane Falcone e Carlos Eduardo Brito, ambos graduandos de psicologia, iniciaram estágio em terapia comportamental com a supervisão de Geraldo da Costa Lanna no CORPSI (Centro de Orientação Psicológica), situado na Lagoa - RJ e se tornaram os seus principais pupilos. Lanna era admirado por sua inteligência brilhante e por sua vasta cultura, que impressionava até os profissionais de outras abordagens teóricas. Sua postura atenta e crítica às afirmações desprovidas de dados empíricos e aos textos de discursos confusos, considerados por muitos como “sofisticados” ou “profundos”, era uma de suas características marcantes.

Lanna foi um dos responsáveis pela vinda de Joseph Wolpe nos anos 1960 e, posteriormente, de Victor Meyer nos anos 1980, ao Rio de Janeiro. Meyer era professor e pesquisador da Universidade de Londres e se tornou muito popular por criar e comprovar experimentalmente a eficácia da técnica de prevenção de respostas (hoje conhecida como prevenção de rituais) no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo.

Uma das afirmações mais memoráveis de Lanna era: “Se você não compreende o que está escrito em um texto, é porque ele não foi bem escrito e não porque você foi incapaz de compreendê-lo”. Outra mensagem que ele costumava repetir aos seus alunos era: “Ao ler as afirmações críticas atribuídas a alguma teoria, procure conhecer mais sobre essa teoria em textos originais, uma vez que essas afirmações podem ser infundadas.” Seus maiores legados foram o respeito ao conhecimento científico e o senso crítico na assimilação de novas teorias. Eliane Falcone e Carlos Eduardo Brito tiveram o privilégio de aprender a prática da terapia comportamental sob a supervisão de Lanna e, como não poderia ser diferente, de adotar a sua postura crítica ao modelo psicoterápico descompromissado com as evidências empíricas.

Em uma época em que a terapia comportamental inexistia na grade curricular das universidades do Rio de Janeiro e que a disciplina “Behaviorismo” costumava ser ministrada por professores não familiarizados com o tema, a visão dessa abordagem era geralmente transmitida de forma deturpada e negativa. Em outras palavras, os alunos aprendiam a detestar o que de fato desconheciam. Assim, a afirmação de ser um terapeuta comportamental ou um condutoterapeuta costumava ser recebida pelos psicólogos com desconfiança. Entretanto, essa experiência era compreendida como um desafio estimulante para os jovens seguidores de Lanna que adoravam se envolver nos debates acadêmicos, seguindo na contramão do padrão teórico/clínico vigente, respaldados pelos ensinamentos do grande mestre.

Em 1981 chega ao Rio de Janeiro um professor austríaco, Harald Lettner, que foi contratado na PUC-Rio por Bernard Rangé, então Diretor do Departamento de Psicologia desta instituição. Lettner permaneceu no Brasil por 10 anos, tempo suficiente para dar um novo impulso ao movimento da terapia comportamental no Rio de Janeiro (Rangé & Guilhardi, 1995).

O ingresso de Lettner no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC permitiu a formação dos primeiros mestres em psicologia clínica a partir dos anos 1990, tendo Helene Shinohara, Eliane Falcone e Monique Bertrand como suas primeiras orientandas. Entretanto, o ensino da terapia comportamental ainda se dava, de forma mais ampla, nas clínicas ou consultórios particulares, através de cursos de formação com supervisão de casos clínicos.

O Instituto de Psicoterapia Comportamental (IPC), fundado no início dos anos 1980 e dirigido por Carlos Eduardo Brito e Harald Lettner, contribuiu para a formação de vários profissionais, dentre os quais se destacaram Maurício Canton Bastos, Mônica Duchesne, Maria Alice Castro, Lucia Novaes e Sandra Salgado. Outros profissionais formados por Eliane Falcone que também se destacaram incluem: Paula Ventura, Monique Bertrand, Denise Rodrigues e Antonio Carvalho. Em meados dos anos 1990, Eliane Falcone continuou a formar terapeutas em parceria com Helene Shinohara, que veio de São Paulo para residir no Rio de Janeiro. Helene foi formada em terapia comportamental por Hélio Guilhardi, da PUC de Campinas.

Rangé, por seu lado, também oferecia grupos de estudo e supervisões a partir de 1993, do qual fizeram parte, anos mais tarde, uma parcela significativa dos que se tornariam terapeutas cognitivo-comportamentais originários do Programa de Pós-Graduação da UFRJ, como Ana Claudia Peixoto, André Pereira, Angela Alfano Campos, Fernanda Pereira Hildebrandt, Ingrid Amorosino, Isabela Soares Fontenelle, Maria Amélia Penido, Patricia Pacheco, Angelica Borba, Adriana Cardoso, Raphael Fisher Peçanha entre outros.

A contribuição do modelo cognitivo: uma nova etapa

Durante os anos 1980 o grupo de terapeutas comportamentais do Rio de Janeiro começou a tomar contato com a terapia cognitiva de Beck, através da primeira publicação em português intitulada: Terapia Cognitiva da Depressão (Beck, Rush, Shaw & Emmery, 1982). Até então, os modelos que fundamentavam a prática clínica, além das teorias de aprendizagem, eram os de Albert Bandura, Joseph Wolpe, Hans Eysenck, Stanley Rachman e Arnold Lazarus (Falcone, 2006). Embora esses autores já apresentassem algum conteúdo cognitivo em suas propostas de intervenção, foi o modelo cognitivo de Beck que chamou atenção para uma mudança de paradigma, onde processos cognitivos exerciam um papel mediador entre as experiências e as reações emocionais e comportamentais.

Assim, no início dos anos 1990, um grupo constituído por Bernard Rangé, Eliane Falcone, Helene Shinohara, Lucia Novaes, Mônica Duchesne, Paula Ventura e Maria Alice Castro resolveu se reunir para discutir o tema a partir do livro intitulado Anxiety Disorders and Phobias (Beck, Emery & Greenberg, 1985), o qual abordava o modelo conceitual e a terapia cognitiva da ansiedade. A partir dessa experiência, o grupo do Rio de Janeiro passou integrar o paradigma cognitivo à prática comportamental, assumindo o movimento cognitivo-comportamental, o qual já havia se solidificado em outros países (Dobson & Scherrer, 2004). Durante os anos subsequentes, o grupo continuou se atualizando através da participação de congressos no Brasil e no exterior, formando intercâmbios com muitos profissionais da área (Rangé, Falcone & Sardinha, 2007).

A Terapia Cognitivo-Comportamental no contexto acadêmico e nas Associações Científicas: o amadurecimento

Além da inserção do modelo cognitivo em suas práticas, os profissionais do Rio de Janeiro começaram a conquistar espaço na área acadêmica. Esse foi mais um impulso ocorrido nos anos 1990 que contribuiu para a expansão da terapia cognitivo-comportamental (TCC) nos cursos de graduação e de pós-graduação de universidades tais como a UERJ, UFRJ, PUC-Rio, UNESA e UVA. A inserção desses profissionais em Programas de Pós-Graduação favoreceu a formação de vários mestres e doutores que já exerciam a prática da TCC e que passaram a se dedicar a pesquisas na área. Com isso, a quantidade de publicações em livros e em periódicos científicos se proliferou de tal forma que seria impossível mencionar nesse texto. Alguns hospitais como a Santa Casa de Misericórdia e o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) também começaram a acolher profissionais que até hoje desenvolvem trabalhos de intervenção e de pesquisa em TCC.

A década de 1990 também marcou a organização de importantes eventos e associações científicas. Em 1991 Bernard Rangé fundou a Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMC), da qual foi o Presidente, tendo Geraldo Lanna como Vice. Essa Associação integrou profissionais de São Paulo, Ribeirão Preto e Campinas e abriu o primeiro canal de trocas científicas entre grupos de outras cidades do Brasil. Bernard e o grupo do Rio de Janeiro organizou o I Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina Comportamental, ocorrido em 1992 na UERJ (Rangé & Guilhardi, 1995).

Dois encontros internacionais organizados no Rio de Janeiro – o Encontro Internacional de Terapia Cognitivo-Comportamental (1993) e o V Latini Dies (1999), tendo esse último ocorrido juntamente com o II Congresso Brasileiro de Terapias Cognitivas da Sociedade Brasileira de Terapias Cognitivas - SBTC (Hoje denominada Federação Brasileira de Terapias Cognitivas – FBTC) – propiciaram uma troca científica com vários profissionais renomados do exterior, como nunca antes acontecera. Nesse último evento foi fundada a Associação Latino-Americana de Terapias Cognitivas (ALAPCO), da qual Bernard Rangé foi presidente (nas gestões 2002-2004 e 2012-2014) (Rangé, et. al, 2007).

O Rio de Janeiro também sediou a Sociedade Brasileira de Terapias Cognitivas (SBTC), hoje FBTC, tendo Eliane Falcone como presidente, no período de 2003-2005. Esse período contribuiu para aumentar a popularidade da TCC no Brasil. Com o objetivo de divulgar a FBTC no Rio de Janeiro foi organizada a 1ª Mostra de Terapia Cognitivo-Comportamental que aconteceu na UERJ, em setembro de 2003, reunindo 600 participantes. O sucesso da 1ª Mostra a transformou em um congresso estudantil bastante popular (Rangé et al., 2007). Em 2012, quando se comemorou os 10 anos desse evento, foi lançado um livro comemorativo organizado por Eliane Falcone, Angela Oliva e Cristiane Figueiredo com o título: Produções em Terapia Cognitivo Comportamental. Essa obra histórica reúne, em 50 capítulos, os principais trabalhos apresentados ao longo desses 10 anos de evento (Falcone, Oliva & Fiqueiredo, 2012; Novaes, 2012; Rangé, 2012).

Ainda durante a sua gestão como presidente da FBTC, Eliane Falcone fundou em 2005 a Revista Brasileira de Terapias Cognitivas (RBTC), com a colaboração de Lucia Novaes, Adriana Nunan e Monica Duchesne. Durante quatro anos consecutivos Eliane e suas colaboradoras, além de um grupo de revisoras técnicas (Aline Sardinha, Conceição Santos, Giselle Couto, Juliana D’Augustin, Liliane de Carvalho, Lívia da Silva de Santana, Patrícia de Souza Barros, Sanya Franco Ruela e Viviane Rosa Marinho), trabalharam arduamente na editoração desse periódico (para conhecimento mais detalhado desse trabalho, ver Falcone, 2007).

Uma vez que a próxima gestão da FBTC se mudaria para outra cidade em 2005, foi necessária a criação de uma associação no Rio de Janeiro para dar continuidade às próximas Mostras. Assim, foi fundada a Associação de Terapias Cognitivas do Estado do Rio de Janeiro (ATC-Rio), tendo Helene Shinohara como presidente e como criadora do nome desta associação (Falcone et al., 2012).

O saldo atual e as perspectivas futuras

O crescimento da TCC no Rio de Janeiro teve início com poucos profissionais envolvidos em ensinar e praticar essa abordagem, superando muitos desafios. Observa-se que esse crescimento se acelerou a partir da organização de associações científicas, da ocupação de alguns profissionais em universidades e em instituições de saúde, da organização de eventos científicos e das publicações científicas.

A ATC-Rio, inicialmente criada para atender à demanda de organização das Mostras de TCC, constitui-se como pioneira no Brasil, incentivando a organização de outras ATCs pelo país, por iniciativa da FBTC. Assim é que todas as ATCs são atualmente vinculadas à FBTC. Essa união tem sido bastante profícua, contribuindo para o crescimento da TCC em todo o Brasil.

A criação do grupo de trabalho (GT) intitulado: Pesquisa básica e aplicada em uma perspectiva cognitivo-comportamental, aprovado para o XV Simpósio da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Psicologia (ANPEPP), realizado em maio de 2014, constituiu um grande avanço para a pesquisa brasileira em TCC e para o fortalecimento da FBTC e das ATCs. Dos 29 pesquisadores brasileiros e estrangeiros que compõem o referido GT, oito são do Rio de Janeiro.

Atualmente verifica-se através das publicações nacionais, que a quantidade de mestres e doutores, bem como de terapeutas formados em TCC se multiplicou consideravelmente. Vários são os cursos de formação e de especialização oferecidos no Rio de Janeiro. Deve-se reconhecer que esse crescimento não se deu somente pelo trabalho dos profissionais pioneiros mencionados nesse texto. A popularidade e o reconhecimento da TCC como uma abordagem baseada em evidências em todo o mundo também tem o seu papel nessa conquista.

Entretanto, a fundação de uma associação científica, da organização de eventos científicos, do espaço ocupado em instituições, de pesquisa, de publicações e de uma grande motivação para transmitir conhecimento são requisitos fundamentais para que uma corrente de pensamento possa florescer.

A história da TCC no Rio de Janeiro tem pouco mais de 50 anos. Embora ainda jovem, já está estruturada para realizar novas conquistas. A ATC-Rio, em integração com a FBTC, representa um espaço considerável de intercâmbio científico para atingir esses objetivos. As Mostras realizadas no Rio de Janeiro têm sido de fundamental importância para o desenvolvimento de clínicos e pesquisadores, bem como para o intercâmbio científico e a produção de conhecimento na área.

Referências:

Beck, A. T.; Emery, G. & Greenberg, R. L. (1985). Anxiety disorders and phobias. Acognitive perspective. New York: Basic Books.

Beck, A. T.; Rush, A. J.; Shaw, B. F. & Emery, G. (1982). Terapia cognitiva da depressão. Rio de Janeiro: Zahar.

Dobson, K. S. & Scherrer, M. C. (2004). História e futuro das terapias cognitivocomportamentais. Em: P. Knapp (Org.) Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica (pp. 42-57). Porto Alegre: Artmed.

Falcone, E. M. O. (2006). As bases teóricas e filosóficas das abordagens cognitivo-comportamentais. Em: A. M. Jacó-Vilela; A. A. L. Ferreira & F. T. Portugal (Orgs.). História da Psicologia. Rumos e percursos (pp. 195-214). Rio de Janeiro: Nau Editora.

Falcone, E. M. O. (2007). Editorial: Revista Brasileira de Terapias Cognitivas (RBTC). História e panorama atual. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 3, 11.

Falcone, E.M.O., Oliva, A.D. & Figueiredo, C. (2012). Dez anos de produção de conhecimento: uma história de conquistas. Em E.M.O. Falcone, A.D. Oliva & C. Figueiredo (Orgs.). Produções em terapia cognitivo-comportamental (pp. 13-16). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Malagris, L.E.N. (2012). Prefácio II. Em E.M.O. Falcone, A.D. Oliva & C. Figueiredo (Orgs.). Produções em terapia cognitivo-comportamental (pp. 11-12). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Rangé, B. (2012). Prefácio I. Em E.M.O. Falcone, A.D. Oliva & C. Figueiredo (Orgs.). Produções em terapia cognitivo-comportamental (pp.7-9). São Paulo: Casa do Psicólogo.

Rangé, B.P., Falcone, E. M. O. & Sardinha, A. (2007). História e panorama atual das terapias cognitivas no Brasil. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 3, 53-68.

Rangé, B. & Guilhardi, H. (1995). História da psicoterapia comportamental e cognitiva no Brasil. Em: B. Rangé (Org.). Psicoterapia comportamental e cognitiva. Pesquisa, prática, aplicações e problemas (pp.55-69). Vol. 2. Campinas: Editorial Psy.